31 de dezembro de 2003

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2003
Foi o ano de todos os sustos. O que todos sabíamos e ninguém falava começou a vir ao de cima. Mexeu-se no lodo e começámos todos a dar às pernas, aflitos, nas água da terra-mãe. Falar dói mais do que calar. Mudar dói mais do que ficar quieto (ou assim parece).
Muitos de nós sentimos a necessidade de controlo que se apoderou dos portugueses: é preciso controlar o défice, as baixas fraudulentas, a fuga aos impostos, o desafio à lei. Ou simplesmente à forma menos ortodoxa de trabalhar, no caso dos empregadores mais stressados...
Foi o ano em que foi necessário partir. As coisas instaladas. A Função Pública, ou pelo menos os sectores mais instalados dela, não voltará/ão a ser o reduto de malandros improdutivos que era pelo menos há quase 30 anos. Nunca mais (ou pelo menos nos tempos mais próximos) se poderá dizer: "entrei para o quadro já não preciso de trabalhar". Ou pelo menos assim o julga o piedoso Bagão Félix (ou nós julgamos que ele julga, que no que toca a pessoas com as costas quentes, seja da Igreja Católica, seja de outro lóbi qualquer, nunca se sabe onde acaba a verdade e começa a conveniência).
Este foi o ano do boom e morte de muitos blogues. O Prazer_Inculto nasceu a 1 de Março, e ainda por cá anda (pelo menos por mais uns tempos). Como podem ver pelo canto superior esquerdo, recebeu até hoje, mais de 30.000 visitas. Não é muito, comparado com os blogues obscenos ou com os políticos. Mas esse nunca foi o objectivo. Quem vier por bem continuará a ser bem-vindo. E aos mais fiéis, envio o abraço de alguém que se tem sentido contente por poder partilhar por um meio muito diferente dos livros as suas ideias e delas ter recebido feedback e novos contributos.
Pessoalmente não tenho grandes expectativas para o ano que se avizinha. Talvez seja de hoje estar um dia de chuva e de ter lido os jornais. Gostaria de ver o país animar-se, usar a sua imaginação para sair do estado depressivo em que caiu (e foi empurrado, igualmente).
Gostava que 2004 fosse o ano em a RTP deixasse de ser pimba, o Bigbrother fosse esquecido e a Sic Radical voltasse a transmitir OS MARRETAS (de todos, este parece ser o pedido mais provável...).
No fundo, o que eu queria mesmo era que Portugal olhasse para si próprio e distinguisse o que vale a pena do que não passa de lixo. Mas isso não é um trabalho para um ano, imagino. Talvez para um século.
Bom Ano e espero que cada um de nós consiga chegar ao fim sentindo que se tornou uma melhor pessoa.
Até 2004

28 de dezembro de 2003

E-MAILS
Na minha caixa de correio, dois e-mails de alunos meus. Separados por12 anos de distância. Os dois a lembrarem com alegria os dias que partilhámos entre aprendizagens. E deste lado, o mesmo sentimento contente.
Uma amiga minha, já desaparecida, afirmava que "no fim do ano, o professor fica sempre com as mãos vazias". Tinha razão, os professores sucedem-se e muitos são esquecidos e esquecem as muitas caras com que se cruzam. Mas às vezes, algumas vezes, somos confrontados com a memória de termos tocado o coração ou a inteligência de alguém. E nesse instante, as nossas mãos - abertas - enchem-se de novo.
:)

27 de dezembro de 2003

GOING HOME
Amanhã tenho de me meter à estrada para regressar a Lisboa... A ver se não me esqueço de terminar o testamento esta noite...
BREAKING NEWS
A Tvi e o seu mais do que esforçado telejornal descobriram uma prisão portuguesa que tem uma Ala Livre de Drogas. Pudemos ver como rapaziada jovem e já sem carros para assaltar se entretinha a cantar e fazer tapetes. Isto dá-nos duas esperanças: a) existem espaços prisionais onde trabalham guardas que não se preocupam a arredondar os finais de mês. b) Novos talentos da indústria têxtil e do Mundo da Canção poderão surgir em breve (2 ou 3 anos, com bom comportamento ou se o Papa não bater as botas e lhe apetecer vir rezar à nossa senhora de fátima...).
Nem tudo está perdido.

26 de dezembro de 2003

O SOM DA BARRIGA A GEMER
Muitos portugueses estão neste momento com medo de ficar a sós com os seus estômagos e intestinos. Receiam ouvir-lhes os gemidos e os apelos ao fim da ingestão disparatada de doces e carnuças... ;)
INDULTO
Contrariando a última moda portuguesa de colocar tudo quanto mexe na cadeia, o Presidente da República resolveu diminuir a pena da enfermeira condenada pela prática de aborto em diversas mulheres. Todas tinham ido até ela pelo seu pé, carregando o peso da sua decisão. Ainda assim, o juiz resolveu a coisa com mão pesada. Enfim, quem dorme na sua cama é ele e, como se sabe, em Portugal, o que o Juiz Decide está decidido. Sic.
A Juventude (????) Popular já veio manifestar o seu repúdio pelo acto presidencial. Em comunicado terá referido a medida como inoportuna, numa altura em que "se reuniu um amplo consenso quanto à necessidade de combater de forma exemplar o flagelo do aborto clandestino". As companhias de aviação com ligações a Londres e Madrid já vieram apoiar esta medida, temendo perder metade da classe executiva para esses destinos operatórios.

24 de dezembro de 2003

NOTÍCIAS URGENTES ENTRE RABANADAS
Fui acordado pela notícia urgente na Antena Um. Em directo do Iraque, no noticiário entrevistava-se um responsável da GNR sobre o horror da não-chegada do bacalhau. Com ar heróico, o graduado respondia que os militares em serviço no Iraque "estavam preparados para enfrentar as adversidades (...) que esta ERA GRAVE, mas que iriam suportar com espírito de missão".
A RTP, também desenvolveu o assunto e ainda nos informou que o BOLO REI também não chegaria aos palatos republicanos.
Perante esta crise, pergunto eu: o que fez o Ministro da Defesa para aligeirar o temível fardo (de bacalhau) a quem se sacrifica assim pela pátria? Responde ele: "Fizemos umas k7 de vídeo com mensagens das famílias. Uma espécie de "Adeus e Até Ao Meu Regresso- REDUX".
Alguém anda a passar muito tempo com ex-combatentes...

23 de dezembro de 2003

FIREPLACE
Os lugares de fogo são frequentemente solitários. Como aqueles que se habitam quando a família parte para dormir e ouvimos as chamas da lareira crepitarem. Nesses instantes somos carregados em braços vermelhos até um tempo primitivo em que só existia o Homem e o seu periclitante destino. Ficamos sozinhos com a evidência das coisas naturais. E é dessa postura desarmante que compreendemos a força combativa que transportamos.
AINDA O TEMPO

O Tiago enviou-me este link sobre a passagem do tempo. Justifica o clique.

22 de dezembro de 2003

ANTES QUE ME ESQUEÇA...

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...Feliz Natal! ;)
MANOBRAS DE DIVERSÃO
As Produções Fictícias apresentam no S. Luis os melhores momentos dos espectáculos "Manobras".
Durante hora e meia rimos com o humor inteligente e o trabalho do encenador (Marco Horácio) e dos actores que temos visto crescer (no caso do Bruno Nogueira, de forma imparável...), diante dos nossos olhos. Os textos reflectem a actualidade portuguesa de uma forma frequentemente certeira e sempre muito divertida. Excelentes momentos como o pastiche ao programa da Ana Sousa Dias (em que os dois actores são brilhantes), os padres cantores ou a rábula da Revista à Portuguesa, justificam a deslocação urgente ao S. Luís. Querendo ou não, aquilo que o Parque Mayer foi, na memória de muitos, em termos de divertimento e crítica, aconteceu ali.
Destaque para as luzes e para o grafismo geral da peça.
Desviem-se os que gostam de sair de uma sala em sofrimento... É que ali até bolas de papel para atirar aos actores se recebe.... ;)

20 de dezembro de 2003

SÁBADO
Corro, montado na burra do Tem-que-ser. No Alforge, os compromissos inadiáveis. Na frente, a região saloia onde criaturas simples comem pão, cebolas e vêem as Tvis.
Atrás de mim, vem um romance, uma história infantil e um filme em que gostaria de pensar....

19 de dezembro de 2003

JÁ É TARDE ESTA NOITE

Vim todo o trajecto, a pé, a pensar que os deuses se divertem a jogar connosco ao Gato e ao Rato sobre um tabuleiro de damas. Julgamos que é xadrez e que nos basta saber que aquilo é uma torre, ali um cavalo e que se movem em diagonal, ou a direito, ou de outra forma qualquer. Cremos ser possível dominar as regras complicadas e vencer. Mas trata-se de um jogo mais simples. E nós temos apenas uma peça para mover.

Esta noite, entre a Estrela e Campo e Ourique cheirava a árvores tropicais. Mesmo se as ruas estavam desertas com vagabundos e polícias como sempre. Havia este aroma. Desconfio que Lisboa foi de viagem até de manhã...

18 de dezembro de 2003

CINEMA NOVO

Estreia amanhã. A materialização do último livro.
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Ouvi dizer que os ortodoxos da Escola de Cinema se iriam acorrentar em frente ao écran. "Não concebemos a emoção aliada ao entendimento do que se vê e ouve", terá dito um docente (que pediu um novo adiamento da reforma). Outro ter-se-á limitado a exclamar: "Ouvimos dizer que há partes em que o público SE RI!!!!". Poderão todos ter começado a gritar: "Morte ao Vasco Santana! Morte ao Vasco Santana!"...
Eu não acredito nesta história, mas enfim...
TEMPUS FUGIT

Enquanto corríamos por ervas daninhas imaginando-as florestas, éramos estes:

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E era por ela que o nosso coração batia...
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Enquanto julgávamos que um dia seríamos ele:

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Resta-nos apenas esta música antiga...

AS DIOPTRIAS DE AFONSO

É impressão minha ou o país está a ficar mais pequeno? Se calhar os portugueses andam com os binóculos ao contrário.
Do tamanho do nosso stressado umbigo, talvez...

16 de dezembro de 2003

MENSAGEM DE NATAL DE SUA EXCELÊNCIA "A gRALHA"

Depois de seleccionar cuidadosamente as pessoas a quem queria enviar uma mensagem de Boas Festas, do meu livro de endereços, teclei-a furiosamente. Para me sair um neologismo interessante "Ortiga". Depreendi que os deuses me tinham feito profeta de uma nova planta... (suspiro) Há dias em que a melhor das vontades...

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ORTIGA (urticariaignorantis)